Conteúdo literário destinado a maiores de 18 anos.

Um conto Bilquis

Blue E Kaluya – Flor&Cultura 1

ColeçãoLeitura Íntima TemasInevitável - Romance IntensidadeIntenso
18+

Ficção erótica para pessoas adultas. Leia no seu tempo, em um momento só seu.

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Blue E Kaluya

PREFÁCIO

Os quadris de Blue balançavam ao ritmo da música, hipnotizando a todos à sua volta com ondas de magnetismo que se assemelhavam ao canto de uma sereia. Seu corpo todo vibrava com a felicidade que sentia ao dançar, cada pessoa exalando um cheiro único do estado de realização que só a arte lhe causava. O sorriso de Blue traduzia a alegria que os próprios movimentos causavam em resposta à música. 

À distância, Thiago Kaluya observou a bela mulher no centro da roda como qualquer outro da plateia: arrebatado.

Sem conseguir entender, sentiu o magnetismo da dançarina lhe manter paralisado. De costas para ele, ela se mexia para o homem à sua frente com alegria, ele a pegou pela cintura com um braço e, no ritmo da música, a deusa a frente de Thiago desceu arqueando as costas para trás enquanto um sorriso embevecido lhe pintava o rosto. 

Seus braços balançavam em um movimento que fez Thiago se surpreender. Como um braço poderia ser tão sensual? O susto real, no entanto, veio quando ela abriu os olhos, naquela posição estranha, arqueada nos braços de outro homem ela abriu os olhos e encontrou os de Thiago em sua direção. 

No milésimo de segundo que se seguiu, Thiago sentiu uma onda de choque lhe percorrer o corpo todo. Sem conseguir perceber a impossibilidade da situação, sentiu em seu rosto a brisa quente da respiração arfante dela, um cheiro doce e delicado lhe assaltando os sentidos. Seus olhos, que de tão longe pareciam escuros como a noite, brilharam com uma emoção que se refletiu no corpo de Thiago. 

Do centro da roda, para Blue era como se o sol tivesse dado as caras no meio da noite.  Ela sentiu o cheiro forte, amadeirado e picante como o de canela lhe atingir em cheio, mascarando os outros aromas a sua volta. Sua boca se encheu de água e numa tentativa ridiculamente falha de sentir o gosto do estranho colocou a ponta da língua para fora brevemente. 

Como é que o cheiro de André, que exalava felicidade bem colado ao seu corpo lhe parecia tão distante e o cheiro amadeirado de canela daquele estranho lhe dominava os sentidos como se estivessem grudados um ao outro? Blue não sabia, e esse questionamento nem mesmo lhe ocorrera até mais tarde naquela madrugada. 

Blue, sem entender o impulso que lhe impeliu, andou em direção ao homem que a assistia do círculo a sua volta. Seu corpo, que ainda estava no controle de suas ações, deu os passos de acordo com o ritmo da música que ainda começava, sem perceber quão sincronizada estava sua respiração com a daquele estranho. 

Suas pernas se moveram para o lado quando o som do atabaque surgiu e seus pés a fizeram rodopiar pelo espaço. Thiago a seguiu de longe desviando de quem podia na roda, como se uma corda o arrastasse e o mantivesse na órbita daquela mulher. Quando o dançarino atrás dela a puxou de volta para seu próprio abraço, o encanto em volta de Thiago cessou momentaneamente e, atordoado pela situação, no segundo que se seguiu ele deu um passo para trás. 

A realização de que ninguém capaz de o atrair tanto seria fácil de lidar… tiraria tudo do lugar.

Continuou a se afastar até se sentir hábil para se respirar por si só novamente, Thiago deu outro passo para trás e mais outro até que conseguiu sair da roda. O ar, por mais puro que parecesse, no entanto, não lhe parecia mais suficiente.

Blue sentiu a distância entre si e o estranho crescer enquanto no ritmo da dança tentou se desvencilhar do amigo a sua frente. Quando conseguiu se voltar novamente para aquele lado do círculo, já era tarde demais, coisa que no fundo seu instinto já lhe tivera avisado. Ao fim da música, saiu do centro de dança e correu para a barraca de sua família para pegar um copo de suco e refrescar-se. Olhou em volta na esperança de encontrar o estranho que tinha lhe roubado a atenção da dança, mas em seu âmago já sabia, ele não estava mais presente.  

capítulo 1

KALUYA

A memória daquela mulher me perseguiu por todo o caminho de volta para casa. Eu não esperava por isso enquanto encarava o teto escuro do meu quarto, nem da minha reação essa noite. 

A cada vez que fechava os olhos, via os movimentos marcantes da dançarina, seu sorriso amplo e iluminado, sentia seu cheiro doce como se ela estivesse diante de mim novamente. E apesar do esforço que fazia para pensar em outra coisa, apenas me frustrei cada vez mais, pois, meus pensamentos se desviavam do olhar para o movimento hipnotizante dos quadris… braços… ombros… cabelos… Merda! Tudo naquela mulher parecia perfeito de se assistir… E de se tocar. 

Como seria tocá-la?” a dúvida me perturbou tirando um resmungo baixo. 

Nada fazia sentido. Não a forma que me senti ao vê-la dançar.

Nem a conexão que senti ao encontrar seu olhar.

E muito menos a sensação de alerta que senti quando ela me deu as costas. 

Quem era aquele cara dançando com ela? Será que eles tinham algo?” Eles pareciam íntimos… eu havia vindo embora sem nem ao menos pensar em nada, meu instinto de sobrevivência me afastando da confusão que se instalara em minha mente. 

Era como se minha respiração não fosse capaz de entrar no ritmo certo sozinha, agora mesmo, deitado em minha cama sentia o ar que respirava pesado… denso… quase como se faltasse algo doce para trazer leveza. 

Decidi vir embora no impulso de acabar com a confusão que me dominou, mas agora me arrependia por não ter ao menos tentado descobrir quem ela era. “Talvez eles fossem só amigos…” Pensei esperançoso.  

Sem perceber as horas passando, minha mente ficou dando voltas com os mesmos pensamentos até eu finalmente cair no sono, por isso, ao acordar, sentia como se não tivesse descansado nem um pouco e precisei reunir toda minha força de vontade para realizar o esforço de sair da cama. Não sabia quantas horas havia dormido, mas haviam sido poucas. 

Meu dia seguiu com essa irritante sensação de cansaço e apesar do café forte que me deu a força necessária para sair de casa, meu mau humor me denunciava a cada tentativa de contato que tentavam fazer comigo.

Quando meu diretor de mídia entrou no meu escritório, vi a primeira coisa verdadeiramente promissora do dia se desenrolar na minha frente com as notícias que ele trouxe e por algumas horas consegui evitar de pensar nela. 

No meio da tarde, no entanto, foi inevitável não lembrar da dançarina. Ela parecia tão feliz dançando… como se a música ganhasse vida própria em seu corpo ao realizar aqueles movimentos. A sensação de arrependimento por ter ido embora permanecia me incomodando, e foi pensando nisso que me dei conta de que em algum momento teria que agir e fazer algo para descobrir quem ela era. “Não deveria ser tão difícil, certo?

Eu estava tão perdido nos meus pensamentos que foi uma surpresa me dar conta de que não estava mais sozinho na sala. Sem mover um músculo indicando meu reconhecimento esperei mais alguns segundos antes de falar:

– Eu já tive muitos olhares de admiração assim sobre mim, mas geralmente só depois de fazer elas gozarem ao menos 3 vezes. – Disse com a expressão ainda impassível. 

A risada forte de Vitor encheu a sala.

– Eu não sei como você faz essa merda. – Ele disse saindo do ponto em que estava parado perto da porta e se sentando na cadeira à minha frente.

– Nem nunca vai saber. –disse finalmente olhando para o meu amigo. 

– Qual é o nome? – Vitor perguntou curioso.

– Nome? – devolvi sem entender.

– Do caminhão que te atropelou meu amigo. – Completou com um sorriso cínico. – Qual o nome dela? Ou essa cara de ressaca é sinal de que nem se lembra?

Foi a minha vez de rir. 

– Vai a merda caralho! Como você sabe? – Perguntei incrédulo. Poucos segundos com ele e meu humor já tinha melhorado, talvez o dia não fosse terminar de forma tão ruim quanto pensei. 

– Com você? Esse olhar determinado só quer dizer duas coisas… dobrar algum cliente ou mulher! – Disse como se fosse óbvio. – E negócios eu sei que não são, eu trabalho aqui esqueceu?!

Vitor era meu completo oposto em várias coisas, mas definitivamente era o melhor amigo que tinha, e por isso não conseguia esconder muita coisa dele. O bastardo era o melhor em ler os outros e me conhecia direitinho, suspirei resignado. 

– Fala caralho! – Vitor incentivou mais uma vez. 

– Você é um fofoqueiro de merda mesmo né?! Não aconteceu nada, só vi uma dançarina ontem que não sai da minha cabeça. – Respondi neutro, mas com um sentimento sorrateiro de excitação me rodeando.

– Nos nossos clubes tem dezenas de dançarinas e nunca vi você perdendo tempo pensando nelas… – Vitor contrapôs novamente como se fosse o óbvio, como eu disse, um bastardo que me conhecia bem demais.

– Era um ambiente diferente, me lembrou… o passado. – disse como se não fosse nada, me recusando a analisar esses sentimentos mais de perto, e logo mudei de assunto. – Como vai Camila?

– Sua irmã está muito bem, de nada! Ainda brigando comigo a cada momento por “ter feito isso com ela” – Disse com a sua grossa demais fazendo uma péssima imitação da voz normal de minha irmã. – Mas passa o dia naquele quarto enfeitando tudo com se a criança fosse sair da barriga dela lendo. Tem tanto livro lá que eu acho que o menino vai ser um bibliotecário. 

Finalmente dei a primeira gargalhada do dia. Minha vida ao lado de Vitor era sempre essa, rir a qualquer hora e sem aviso prévio. 

– Bom, eu te pedi pra não fazer isso com ela, mas você não me ouviu… Então posso apenas te desejar boa sorte amigão. – Respondi com ironia. 

– Pois saiba que fiz isso com ela de novo hoje de manhã… e a escandalosa gritou tanto que quase que acorda o prédio inteiro. Ai como eu amo os hormônios da gravidez! – Vitor respondeu com um sorriso besta no rosto e desviou sem esforço da caneta que voou em sua direção. Rindo com mais força ainda concluiu. – Você já tá ficando repetitivo cara. 

– Da próxima vez eu taco logo o grampeador na sua cara! Mas que merda Vitor, para de fazer essa porra! – disse entre dentes com nojo de tanta informação desnecessária. 

– Agora que ela já tá grávida? Eu vou é fazer ainda mais, não tem como engravidar uma mulher grávida Thiago, é só benefícios desse ponto em diante por pelo menos nove meses. – Vitor disse com tom de obviedade. 

– Eu não sei como pude deixar Camila casar com um idiota como você Vitor! Vai trabalhar caralho! – Respondi contorcendo a cara em resposta. 

Isso só pode ser sacanagem comigo” pensei. 

– Ta bom, ta bom! Só queria saber como você estava mesmo. – Vitor disse se levantando. 

Olhei desconfiado já esperando pela próxima gracinha enquanto ele se dirigia para a porta. E só balancei a cabeça em incredulidade mais uma vez quando ao sair da sala rindo, Vitor cantarolou:

– Os irmãos Kaluya são a nova sensação, a Camila chupa meu pau e o Thiago o dedão.   

Blue

Eu simplesmente não conseguia me decidir. Minhas roupas não pareciam adequadas para nada do que tinha a cumprir naquele dia e percebi que era porque eu não queria ter que fazer nada. 

Diferente do que estava acostumada, não acordei animada depois da noite de atabaque e sim cansada. 

Mas de quê?” Me perguntei. 

Não entendia como dormi tão mal e acordei ridiculamente cansada apesar de ter até mesmo voltado para casa mais cedo.Sem fazer questão de entender, deixei a bagunça que fiz no guarda-roupas como estava e apenas me recusei a tirar o pijama. 

O sol!” minha mente gritou esperançosa me fazendo me arrastar até a sacada. “O Smai tawi vai ficar pra mais tarde um pouquinho” pensei derrotada, e sem me importar com o horário, apenas me deitei na rede e adormeci novamente sentindo o calor do sol finalmente confortar minha pele e a lembrança estranhamente vívida do aroma daquele estranho ir para o fundo de minha mente. 

Foi o cheiro de cidreira com hortelã e mel misturado ao doce e sedutor aroma de lírio que me despertou primeiro, depois a sensação de estar sendo vigiada me fez sorrir antes mesmo de abrir os olhos.

– Você está se sentindo bem? – Nymphea perguntou me observando.

– Apenas cansada. – Murmurei manhosa abrindo os olhos e sorrindo ainda mais ao ver o rosto de minha irmã. 

Nymphea era realmente uma das coisas mais doces do mundo assim como seu aroma denunciava, mesmo que por fora não fizesse questão de demonstrar. 

A xícara de chá em suas mãos tinha um aroma que tomava conta da minha varanda e sem pensar duas vezes abri espaço para minha irmã se sentar comigo na rede enquanto ignorei a pontada de decepção ao tomar do chá e não sentir o gosto de canela que nem percebi que queria até então. 

Dali em diante meu dia finalmente começou de verdade. Depois do chá e da dose de vitamina D, desci com minha irmã para uma sessão conjunta de Smai Tawi, e com os pensamentos e corpo no lugar novamente, resolvi me dedicar ao trabalho. O que eu não esperava era que me concentrar ao longo do dia fosse ser tão difícil. Era dia de preparação no estúdio e parecia que meu trabalho não progredia nunca. Por isso, quando no início da tarde já estava repetindo mais alguns movimentos de concentração, resolvi encerrar o dia de por ali mesmo. 

Dispensei Yanca, minha secretária, e desci a rua do estúdio só parando quando me deparei com a fachada tão familiar da minha infância. 

– Menina Blue? – Seu Damiano me cumprimentou de trás do balcão. – Que bom te ver! 

– Boa tarde Seu Damiano, já estava sentindo falta dos seus doces! – Respondi sorrindo para o senhor sentado junto ao balcão. – O senhor vê pra mim um pedaço de torta de canela? Tô numa saudade dessa sua massa de pão de ló… não existe igual em toda Meret e o senhor sabe disso. 

O velho riu da mulher a sua frente como fazia com a menina que eu costumava ser. 

– Vamos fazer assim, eu te pego um pedaço especial de torta se você prometer que toma um cafezinho comigo, nada disso de ir comer torta em casa! – Ele disse já se distanciando e depois voltando para se sentar comigo em uma das mesas, instalando alguns sorrisos nos meus lábios. 

O sol já se retirava lentamente como uma grande bola de basquete laranja e vibrante no céu, deixando esse último num tom alaranjado hipnotizador. Dessa vez, a piscina em conjunto com a vista foi onde busquei conforto, algo que acontecia com bastante frequência na verdade. 

Não conseguia mensurar quanto tempo passei boiando, sentindo o meu aroma se confundir com o das flores que margeavam as águas. Quando finalmente escolhi uma boia para deitar e relaxar já haviam se passado horas e agora o sol estava dando tchau. 

A água morna competia com o calor de meu próprio corpo enquanto novas imagens daquele estranho me preenchiam a mente. 

Algumas fabricadas por minha própria imaginação. 

Comecei a questionar qual seria a sensação de sentir aquela barba curta me roçando o pescoço, o peito, as pernas… “será que meu cheiro ficaria preso naqueles pelos perfeitamente desenhados se os lábios grossos e suculentos daquele estranho me beijasse onde eu queria?” 

Sentindo a energia se acumular no meu corpo, percebi resignada que a umidade entre minhas pernas de nada tinham a ver com a água morna da piscina, porém, isso não impediu que mais pensamentos fantasiosos me enchessem a mente. Eu não precisava nem me perguntar se meu beijo encaixaria com o daquele homem… A lembrança de seu cheiro me perseguindo o dia todo já deixara mais que explicado que nós combinamos. 

Isso não era uma hipótese, era uma certeza irrefutável na minha cabeça. 

Outros pensamentos, no entanto, eram apenas pura especulação. 

Qual seria a sensação de ter suas mãos me segurando forte pelas pernas enquanto eu rebolava encaixada nele?” 

Como seria tê-lo na minha boca?”  

Será que ele resistiria ou perderia o controle e me agarraria pelos cabelos fodendo minha boca com força até gozar na minha garganta do jeito que eu gostava…?” 

Os últimos resquícios de raios de sol se indo me trouxeram de volta a realidade. Dando um último mergulho na tentativa de esfriar o corpo, me levantei para a noite, decidida a ignorar daquele momento em diante qualquer pensamento que fosse sobre o estranho e seu cheiro de canela.

Mas meus planos foram chacota de minha mente insistente quando essa me fez pegar o celular e mandar no grupo de conversa com minhas amigas, “Danadas”, a mensagem:

Blue: “Quem era aquele estranho de terno na festa de ontem?” 

A resposta não demorou a chegar, mas só veio trazendo mais curiosidade:

Manoela: “Não faço ideia, mas o cara é gato pra caralho!”

Bianca: “Acho que vi ele também, lindo pra um caceteeee!

Raissa: “Quem?? Crush novo? Ai eu odeio perder um rolê!!!

Manoela: “Mas porque ele tava de terno numa noite atabaque?

Nymphaea: “Acho que vi ele conversando com Bruno o braço direito do Kael

Bianca: “Kael, O Kael?

Raissa: “Até a tropa do Kael foi e eu não???

Manoela: “Isso é muito esquisito, faz sentido e não faz….

Blue: “Obrigada meninas, mas preciso ir!

Me levantei e corri para o quarto da minha irmã sem nem pensar, e o encontrei vazio. Resolvi mandar uma mensagem apenas para ela:

Blue: “Onde você está?”

Nymphaea: “No Café. Onde mais eu poderia estar a essa hora?

Como não pensei nisso sozinha eu não sei, mas agora era mais que óbvio que minha cabeça estava fora do lugar. Me arrumei e fui de encontro a minha querida irmã, porém, não consegui descobrir mais nada. Nymphaea viu apenas o que disse na mensagem e em meio ao movimento de encerramento de trabalho no Café, apenas não deu muita atenção a mim. Sua única pergunta foi:

– E desde quando você se interessa por alguém que mexa com a tropa? 

Sua pergunta me desarmando por completo. 

Resignada com o meu destino, eu apenas pedi um capuccino com canela enquanto esperava por Nymphaea para voltarmos para casa.