Capítulo 4 – Blue e Kaluya
Kaluya
A sessão de terapia tinha sido melhor do que eu imaginei.
Ela era tão linda que me tirava o fôlego, e só de estar perto dela sentia meu corpo responder.
Suas curvas generosas eram do tipo que deixava qualquer homem louco, mas sua forma de me encarar, como se pudesse me ler e a cada uma de minhas intenções… isso me instigou ainda mais e muito mais do que eu esperava.
Eu cheguei tão perto de beijá-la que quando voltei para o Tabuleiro fui direto para debaixo do chuveiro frio, minha mão fazendo o trabalho enquanto eu me lembrava de seu cheiro doce delicioso e da sua postura mandona. Eu nem saberia dizer o que me segurou, a forma como seu corpo reagia ao meu era tão explícita que não tinha como ela negar que queria o beijo tanto quanto eu, mas algo na sua reação ao longo da sessão me deixou em dúvida sobre como prosseguir.
“Ela não parece ter ficado feliz com a minha presença em seu local de trabalho” mas eu definitivamente repetiria a dose se fosse necessário.
“Quais as chances de ela não vir?” Me perguntei mais uma vez.
No fundo meu instinto me dizia que ela viria, mas de alguma forma, ainda assim, uma espécie de expectativa e dúvida insistia em se instalar em meu corpo.
Olhei a movimentação do Tabuleiro seguir como o habitual, por ser um bar temático estava sempre lotado, atraía públicos de todos os cantos da Meret desde cedo. No térreo os diversos jogos de tabuleiro eram espalhados por sessões, dos mais antigos como Gamão, aos mais novos como Monopoly.
No primeiro andar, os jogos disputam espaço com suas versões virtuais e com alguns fliperamas. No centro do espaço ficava o bar, ocupando os dois pisos com todo tipo de bebida disponível. As garçonetes iam e vinham com seus patins com uniformes coloridos e sorrisos alegres, tornando o clima ainda mais divertido.
Escolhera aquele local para encontrá-la justamente por isso, era um local neutro, que funcionava com famílias, amigos e casais se divertindo ao som genérico qualquer do mainstream do momento.
Assim, não teria como assustá-la e seria mais fácil fazer ela se sentir confortável comigo depois do episódio em seu estúdio. Tinha ficado óbvio que ela não era totalmente a favor de minha abordagem em seu local de trabalho, e eu precisava ganhar pontos a meu favor, e esperava que a trazer para o meu trabalho ajudasse nisso.
No primeiro andar ficavam também os camarotes, meu escritório e a cozinha, que seria uma das minhas cartas na manga.
Contava com esse outro fator, pois a chef era excelente e com uma ordem minha realizaria qualquer desejo de Blue essa noite.
A intenção era causar uma boa impressão lhe proporcionando tanto prazer quanto possível, de forma que ela nem percebesse quando começasse a baixar a guarda para mim, por isso também, a traria para um dos camarotes e lhe proporcionaria o serviço completo do local.
Eu olhei o relógio mais uma vez, 20 horas e 23 minutos, voltei meus olhos para a janela à minha frente e esperei mais alguns minutos, observando o vai e vem de pessoas.
Por isso, soube exatamente o momento que ela passou pela porta, “linda pra um caralho!” pensei com um sorriso se abrindo em meus lábios.
Uma parte de mim deu graças a Deus por Vitor não estar por perto, ele me atormentaria eternamente se me visse nessa situação, não era comum eu me esforçar tanto por alguém que não tinha certeza se levaria para a cama no fim da noite.
Ela se sentou no balcão do bar e começou a olhar o entorno a minha procura. Não parecia notar os olhares famintos que alguns homens e mulheres lhe direcionava e um sentimento de satisfação acariciou meu ego com a percepção de que eu lhe interessava mais que qualquer um ali e terminei meu whisky antes descer ao seu encontro.
– Você se atrasou novamente. – Disse me acomodando no lugar ao seu lado.
– Não sabia que você estava ansioso à minha espera. – Ela respondeu com um tom falsamente inocente. – Me desculpe, acho que já é a segunda vez hoje né?!
Eu ri com sua ousadia.
– Tão ansioso quanto se pode estar à espera de uma deusa. – Provoquei descendo meu olhar por seu corpo, seu cheiro doce e morno parecia me invadir até mesmo com tanta gente ao nosso redor.
Seus dreads estavam soltos, diferente de mais cedo, e o rosto com uma maquiagem leve, ela estava com uma blusa de manga cumprida, mas que era curta e deixava sua barriga plana de fora e uma calça com rasgos tão grandes que várias partes de suas coxas grossas ficaram à mostra.
Meu pau começou a ficar duro só ao vê-la tão de perto e imaginar a maciez de sua pele.
Quando meus olhos voltaram a encontrar os seus ela mantinha um olhar desconfiado no rosto, se não fosse por toda nossa interação essa tarde, acreditaria que eu não a afetava, mas sabia da verdade, de como seu corpo reagia ao meu e o fato de ela fazer questão de esconder isso dizia muito mais do que ela queria admitir.
E o fato de ela ter vindo então…
– Camarote ou mesa? – Perguntei me levantando e lhe estendendo a mão.
– Mesa. – Ela disse dispensando minha oferta e se levantando sozinha. Ao ficar em pé ao meu lado me olhou surpresa. – Você está sem perfume.
– Pois é, não queria camuflar meu aroma natural. – Respondi aproveitando para chegar mais perto e sussurrei em seu ouvido: – Você pareceu gostar tanto.
Ela se afastou me dirigindo um olhar quase assassino, e com muito custo controlei minha vontade de rir.
A verdade era que não passei de forma consciente, mas sua reação às minhas palavras foi tão deliciosa que agora já sabia como provocá-la.
Ela decidiu me ignorar e observou as mesas ao nosso redor. Escolheu uma do canto, se dirigindo a ela, o jogo era Damas.
– O que gostaria de beber? – Perguntei ainda com um sorriso besta no rosto, sabendo que uma das garçonetes já vinha nos atender.
– Um dry martini por favor. – Ela respondeu com os olhos cheios de dúvidas fixos nos meus.
Nossos pedidos foram feitos e aproveitei para continuar a conversa, sem resistir a vontade de provocá-la mais um pouco.
– Fico feliz de ter confiado nos meus instintos e ter arriscado. – Disse fazendo referência ao ultimato que ela me deu mais cedo.
– Então toda a espera já valeu a pena? – Ela respondeu com um tom irônico.
– Com certeza. – Devolvi com mais um sorriso provocativo. – Como acima, assim abaixo. Certo?
– É. – Ela disse novamente sem dar maiores explicações e logo mudou o assunto. – E o que o levou a escolher esse lugar?
– Ele é um dos meus empreendimentos favoritos. – Respondi com uma meia verdade. – Quando tive a ideia, a maioria das pessoas achavam que ia ser um fracasso, mas acabou sendo um dos mais rentáveis de todos os meus projetos.
– É isso que você faz então? – Ela perguntou parecendo se esquecer de ficar na defensiva por um breve momento.
– Sim, tenho dezenas de bares pela cidade, e mais alguns em algumas cidades do interior. – Respondi. – Depois de um tempo acabei investindo em outras áreas. Mas a verdade é que esse ainda é o meu foco principal.
– E como você começou? – Ela perguntou aceitando o drink que a garçonete trouxe.
Eu peguei meu whisky controlando o sorriso que seu interesse em mim trazia à tona.
– Eu sempre gostei de organizar festas, promover eventos. – Respondi a mesma resposta genérica que dava a todos, sem tocar no ponto principal da questão, continuei. – Quando tive oportunidade juntei um dinheiro e abri meu primeiro bar no Soweto, com um objetivo muito claro: ter um espaço onde meus amigos se sentiriam confortáveis, em que tocasse o que gostávamos de ouvir. Quando deu certo e mais pessoas com nossos gostos apareceram para curtir eu sabia que tinha encontrado o que queria fazer dali em diante.
– Quando foi isso? – Ela perguntou entre um gole e outro, parecendo se soltar um pouco mais.
– Há mais de dez anos. – Disse com calma, querendo manter a conversa nesse nível até ela beber mais um pouco.
– Uau. – Ela respondeu surpresa engatando mais uma pergunta. – E esse aqui, tem quanto tempo?
Sua taça já estava quase no final e eu fiz um sinal para a garçonete preparar outro.
– 4 anos. – Respondi. – Eu queria algo no centro e que atendesse o maior número de pessoas possível, os jogos foram uma aposta que deu certo.
– E você é bom? – Ela perguntou antes de finalizar seu drink, sua língua saindo para aproveitar a última gota do álcool.
– Se eu sou bom? – Perguntei sem entender, pensando nas diversas coisas em que era bom e ela poderia apreciar, o que só serviu para fazer minha calça diminuir mais alguns centímetros.
– Nos jogos… – Ela parecia se divertir com minha confusão.
– Ah! Mais que o suficiente para ser dono de um lugar como esse. – Respondi pegando o cartão no bolso do meu terno e abri o compartimento de peças, as colocando sobre a mesa. – Gostaria de perder para mim também?
A intenção era provocar, atiçar um pouco mais aquela faísca em seu olhar, e funcionou.
– Não sei se você está preparado. – Ela respondeu com mais um sorriso irônico. Eu ri.
– Então vamos jogar. – Lhe disse com o ar mais inocente que pude e ela não protestou.
– Eu fico com as peças pretas. – Ela me informou recolhendo para si todas as peças que comecei a arrumar do meu lado da mesa. Seu tom de desafio era notório.
Meus olhos faiscaram com a pergunta silenciosa que lhe fiz:
“Você é mandona assim também na cama Blue? ” Mas o que saiu de minha boca foi outra coisa:
– Parece que temos uma deusa competitiva no recinto hoje. – Disse abrindo o sorriso que sabia que a afetava. – Tudo bem, eu não preciso de superstição para ganhar.
– Há! – Ela disse rindo alto, seu olhar era divertido e parecia faiscar em resposta com meu desafio. – Veremos se você é tão bom quanto diz, por enquanto, eu aposto minhas fichas em mim.
“Mas que ideia maravilhosa!” pensei e vi o momento que ela percebeu o que disse, se arrependendo.
– Aposta é? – Perguntei bebendo mais do meu drink. – E o que você apostaria?
Ela mordiscou o lábio inferior me fazendo respirar fundo e meu pau endurecer ainda mais.
Meu corpo todo parecia responder aos gestos mais naturais dela de uma forma absurda.
“Como eu vou fazer para levar ela para quele camarote? Talvez o melhor por agora seja ficarmos em público mesmo. ”
Ela continuou em silêncio e eu aproveitei para lhe provocar ainda mais, rindo alto.
– O que você quer de mim? – ela perguntou sustentando meu olhar com determinação.
– Tudo que você estiver disposta a me dar. – Respondi pegando a sua mão em cima da mesa sentindo aquele choque eletrizante abalar meu corpo mais uma vez.
Blue arfou e prendeu seu lábio inferior entre os dentes mais uma vez. Meu pau já estava tão duro que chegava a doer.
– Então eu sei o que quero apostar. – Ela disse se recostando da cadeira tirando sua mão da minha.
Ela bebeu de seu drink enquanto eu a observada em expectativa.
– E o que seria? – Perguntei quando ela não continuou.
– Se eu ganhar… – Ela fez suspense se divertindo com minha ansiedade.
– Se você ganhar… – repeti a encorajando, um sorriso de menina sapeca surgiu em seus lábios.
– Seu eu ganhar, você me diz qual a sua verdadeira ligação com a tropa. – Ela disse bebendo mais da sua taça, me surpreendendo.
“Nem fodendo, por que ela não esquece isso?”
– Por que acha que tenho algo com a tropa? – Perguntei a analisando com cuidado, e tentando manter o tom divertido da conversa.
– Porque meu instinto me diz que você não foi totalmente sincero hoje mais cedo, quando perguntei sobre isso. – Ela disse me analisando de volta. – E nem agora quando perguntei sobre os seus negócios…
“Como ela sabe disso?” pensei desconfiado, mas dois podiam jogar esse jogo e mantive meu foco em desviar sua atenção.
A sensação que eu tinha era que estávamos em uma espécie de competição antes mesmo do jogo começar, e mesmo sabendo que não devia, isso me instigava ainda mais.
– Por quê? Está com medo de perder? – Ela perguntou com tom provocativo, despertando ainda mais meu corpo, eu nem sabia que era possível ficar tão excitado com um flerte. – Tem medo de eu descobrir o seu segredo?
Eu a encarei por mais alguns segundos antes de responder.
– Só pensando no que eu vou querer quando ganhar. – Disse com meu sorriso mais provocativo. – Alguma sugestão?
– Se eu perder…
– Se você perder… – repeti a encorajando a continuar.
– Se eu perder eu deixo você me levar ao bar de Soweto também. – Ela disse me fazendo rir.
– Não, isso não, é pouco. – Respondi de imediato, ela me analisou desconfiada. – Isso eu consigo sem apostar. Se eu ganhar…
Ela esperou bebendo seu martini com o olhar preso no meu.
– Se eu ganhar você passa o final de semana comigo. – Disse com mais um dos meus sorrisos inocentes.
Ela riu com uma ironia descarada, enquanto balançava a cabeça em negativa.
– Fazendo o que? – Ela perguntou com tom de desafio.
– Tudo e somente o que você quiser. – Respondi ainda fingindo inocência. – Por favor, não me leve a mal, eu sou um gentleman e um mero mortal, jamais exigiria mais de uma deusa do que ela está disposta a me dar. Só que…
– Só que… o que? – Ela perguntou mordendo a isca que deixei no ar.
– Se o princípio da correspondência for real, tenho certeza de que seus desejos não estão tão distantes dos meus. – Disse como se fosse óbvio. – Por quê? Está com medo de perder?
Ela riu ao ouvir suas palavras serem jogadas de volta contra ela, balançando a cabeça em negativa. A dúvida em aceitar era grande, dava para ver em seu olhar, mas a energia que sentia vindo dela era a mesma desde o princípio… nós tínhamos que ir mais fundo nisso.
Blue virou o que restou de sua segunda taça de uma vez, pegou a azeitona do fundo, mastigou com calma analisando o tabuleiro antes de fazer seu primeiro movimento.
— Então… – Olhei para ela. — Isso significa que ainda estamos negociando?
Blue apoiou o cotovelo na mesa. Sorriu discretamente.
— Significa que primeiro quero descobrir se você joga tão bem quanto fala.
Ri. — Justo.
A partida começou. Nos primeiros movimentos ficou claro que ela sabia exatamente o que fazia. Não jogava apenas para responder minhas peças. Pensava várias jogadas à frente. Cada movimento parecia esconder uma intenção diferente.
“Interessante…”
Levantei os olhos e a encontrei me observando, como se estivesse esperando minha reação.
“Ela está me estudando do mesmo jeito que estudou meus sintomas no estúdio.”
Aquilo era entusiasmante e desesperador. A forma como ela resistia a mim mesmo quando seu corpo dava todos os sinais que queria se entregar… era estimulante.
Fiz minha próxima jogada. Ela respondeu quase imediatamente. Passamos alguns minutos em um silêncio confortável. Era o tipo de silêncio que continua uma conversa sem precisar de palavras.
As peças avançavam e nossos olhares também.