Capítulo 6 – Blue e Kaluya
Kaluya
Assim que Blue saiu do bar coloquei Renan, um dos meus seguranças para segui-la até sua casa, ela havia bebido vários drinks e não era para estar dirigindo.
Ele era confiável e discreto, cumpriria o serviço e se a ligação de Blue comigo já fosse considerada importante para alguém ele saberia protegê-la se algo acontecesse. Mas eu sabia que tínhamos tempo.
Entre aparecer com ela em público e ela ser considerada uma civil fixa na lista da tropa, nós teríamos que passar meses juntos. Antes disso, seria apenas uma foda ocasional que não levantaria muita especulação.
Ou assim eu esperava. Teria que testar o terreno para ter certeza.
Em seguida pedi mais um drink. Como esperado, em minutos Ester apareceu com uma bandeja, seu corpo estava tenso e eu não conseguia deixar de rir, o que a fez se encolher de medo.
Ester era linda, tinha uma história de vida fodida e quando a encontrei nós nos envolvemos por alguns meses, depois eu consegui um lugar decente para ela morar e quando ela estava pronta para começar a trabalhar lhe arranjei um emprego.
Os termos, no entanto, sempre foram claros e previamente estabelecidos, nunca tivemos nenhum tipo de relação monogâmica. Eu nunca fui muito o tipo de homem que gostava de manter relacionamentos.
Assim que ela começou a trabalhar para mim nossa relação se tornou estritamente profissional, mesmo algumas vezes querendo e ela muitas vezes tentando, nunca deixei nada acontecer novamente. Dormir com funcionárias sempre dava merda e eu já não aguentava mais lidar com esse tipo de drama.
– Sente-se. – Mandei quando ela terminou de me servir. – Então, você quer me contar o que foi que aconteceu aqui hoje? Eu achei que você precisasse desse emprego.
Ela engoliu em seco, seu medo era evidente. Eu nunca faria nada para prejudicá-la de verdade, sabia que ela precisava do emprego, a questão é que ela não sabia disso.
Tudo que ela conhecia era minha fama, desrespeitar alguém como eu não era um bom negócio e perder o emprego era até um castigo leve comparado a outros tantos que ela poderia sofrer, e não era do meu interesse deixá-la saber que não corria esse risco comigo.
– Eu…. Eu… – Ela começou, mas não encontrou as palavras.
– Você se sentiu no direito de invadir meu escritório e tratar mal a mulher que me acompanhava, fazendo uma cena ridícula. – Continuei com o tom frio que a fez se encolher ainda mais. – O que eu quero saber é o porquê.
– Me desculpe senhor, me desculpe. – Ela começou a chorar, me irritando. – Eu não vou fazer de novo, eu prometo.
Eu ri mesmo sem vontade, apenas para que ela se encolhesse mais um pouco.
Poderia ser cômica a forma que ela parecia tão frágil depois de ser tão petulante, mas eu não achava graça nenhuma em sua atitude infantil. A verdade é que eu estava de saco cheio desse tipo de comportamento.
– Não vai mesmo. Até porque você não vai ter mais nenhuma chance. – Continuei me levantando. Parei a sua frente e segurei seu queixo, a fazendo me encarar. Seu medo e sua cara de choro não atrapalhavam sua beleza, mas quando comparada a Blue essa beleza não bastava.
Não era justo comparar duas mulheres, mas nunca seria justo comparar ninguém a Blue, ela estava num outro nível de beleza que mexia comigo de uma forma completamente diferente, simples assim.
– …. eu prometo! Eu prometo! – Ester continuou a falar me tirando dos meus pensamentos sobre a terapeuta, e frustrado percebi que nem tinha ouvido o que ela dissera.
Ela interpretou minha expressão como uma resposta e começou a chorar ainda mais desesperada.
– Você vai voltar a trabalhar no atendimento aos clientes, no térreo, tem 3 meses para provar sua lealdade e comprometimento, se eu ouvir qualquer reclamação com seu nome ou qualquer conversa sobre mim e minhas acompanhantes saindo de sua boca eu vou te deixar onde te encontrei. – Disse com frieza e deixando toda a minha irritação pesar sobre ela. – Eu fui claro o suficiente?
– S… sim senhor.
– Saia. – Conclui rispidamente e ela se foi chorando baixinho.
Respirei fundo tentando me acalmar, o cheiro doce de Blue ainda estava impregnado por toda a sala e isso ajudou. Essa terapeuta era tão esperta quanto gostosa e tinha saído me deixando com as bolas azuis. Mais uma vez.
Seu beijo era delicioso e eu achei que fosse gozar quando ela rebolou no meu colo de tão sensual que tinha sido.
E ela sabia disso, sabia que era demais para qualquer um aguentar por muito tempo e brincava com meu desejo como se pudesse fazer o que quisesse de mim.
E a julgar pela forma como eu só conseguia pensar nela e no que poderia fazer para agradá-la, isso não podia estar muito longe da verdade.
Mas ela me queria também, isso era um fato. Se Ester não tivesse atrapalhado eu aposto que teria conseguido bem mais que uns beijos e uma sarrada.
A cada toque que eu lhe dava ela se derretia ainda mais no meu colo. Podia apostar meu bar que ela tinha ficado molhadinha de tesão, pronta pra mim e só de pensar nisso meu corpo todo arrepiou em resposta, minha boca salivando.
“Ótimo, agora vou precisar de mais um banho frio!” pensei irritado. A voz do idiota do Vitor soou rindo nos meus pensamentos mais uma vez.
– Esperar é uma ova. – Falei sozinho antes de sair do escritório.
Ela podia até tentar, mas não ia fugir de mim tão fácil.
“Eu vim do nada, da fome e da miséria, e conquistei tudo que quis nessa vida com minha inteligência e dedicação… conquistarei essa mulher sem nem perder o fôlego.”

Blue
Quando cheguei em casa, encontrei Nymphaea na piscina, não me surpreendendo nem um pouco. Esse definitivamente era nosso lugar favorito da casa, e enquanto eu preferia sentir o contraste do calor do sol com o frescor da água, minha irmã preferia ficar na água sentindo a brisa noturna. Desde criança me intriguei em como ela parecia não sentir frio como eu, ela conseguia ficar boiando e observando a lua por horas enquanto eu precisava me manter em movimento para não ficar gelada.
Fazendo jus ao nosso nome e eu resolvi acompanhá-la. Fiquei só de calcinha e sutiã, prendi o cabelo e pulei na água, aproveitando para esfriar meu corpo do calor que Thiago me causou e ficamos assim por alguns minutos, enquanto eu continuava a refletir.
Meus lábios ainda se formavam de seus beijos enquanto minha mente vagava para inseguranças antigas, há muito enraizadas.
De certa forma minha reação parecia atrasada, como quando estava na adolescência e ainda aprendia sobre as responsabilidades emocionais de uma relação afetiva. Eu não tive namoros sérios, mas dos poucos namoricos que tive e das relações com amigos e familiares, percebi que era difícil para mim dosar a entrega e envolvimento, sempre gostando demais ou não gostando nem um pouco. Foi preciso muito tempo, reflexão e aprendizado com as mulheres mais velhas da minha família para aprender a contornar isso, a me fortalecer enquanto mulher e dosar o quanto realmente é saudável me dedicar e entregar a alguém. Foi preciso Nymphaea com sua calma sendo minha melhor amiga, irmã e conselheira me ajudando a segurar a onda e me acolhendo a cada etapa. Nossos pais são pessoas ótimas, mas com o trabalho os tirando de casa por longos meses, o que tínhamos de mais estável era uma a outra. Me lembrando de quem eu sou, de que o outro nem sempre é pra mim…
Eu não o conhecia o suficiente para saber o que esperar dele. Se Thiago era realmente confiável ou não, se o seu desejo pelo meu corpo era algo que poderia vir a se tornar um problema ou não. Se essa troca de energia me faria realmente bem ou não…
Se esse fosse um caso de uma noite, eu não precisaria me preocupar com nada disso.
“Mas não é” minha mente me alertou e isso me deixou ainda mais confusa, não conseguia acreditar que ele ficaria depois de ter o que queria, nenhum deles ficava… como poderia criar expectativas?
Ele nem precisava me tocar para eu me sentir atraída para ele… imagina quando todos esses sentimentos e expectativas se realizassem? Não tinha como saber o que causaria.
Era perigoso sentir algo tão intenso por um desconhecido. Ele era perigoso. E o fato de meu instinto sempre se incomodar com o envolvimento dele com a tropa, não era um bom sinal.
Fiquei presa nesses pensamentos até que finalmente resolvi falar. Essa era outra diferença entre mim e Nymphaea, ela preferia esperar a hora certa de falar e sempre esperava eu estar pronta, nunca me pressionando a contar nada que não queria. Minha irmã era uma excelente ouvinte.
– Eu fugi dele. – Mencionei em voz alta.
– Você o que? – Ela me olhou curiosa. – Você fugindo de romance, é sério isso?
– Sim, e eu nem sei o porquê. – Respondi a contragosto.
– Por isso essa calcinha horrorosa? – Seu tom era debochado e eu ri, me sentindo um pouco mais leve. – Você não o quer mais?
– Ah, eu com certeza quero. – Respondi rapidamente. – Quero até demais, e isso me assusta um pouco.
– Entendo. – Ela disse se aproximando, e eu soube que ela realmente entendia. Nymphaea esteve ao meu lado em todos os momentos desde que nasceu, ela sabia como ninguém como às vezes eu ainda tinha medo de gostar demais das pessoas. – Ele não é confiável?
“É” pensei de imediato, mas não respondi, a dúvida veio logo em seguida.
– Não sei, ainda não dá para saber. – disse no lugar. – E eu não confio totalmente em mim perto dele, quando percebo já estou respondendo às suas provocações ou o provocando de volta. – Se tinha alguém para quem poderia admitir isso era minha irmã.
– Não se cobre tanto Blue, vocês estão se conhecendo ainda, não deixe isso te confundir desse jeito. Podemos fazer uma sessão de terapia combinada, o que acha? Amanhã pela manhã e a semana toda se for necessário. – Ela disse com suavidade, mas eu conhecia minha irmã muito bem, seu tom suave demais denunciava que ela estava testando o terreno.
– Exatamente! – Disse mais alto. – O fato de que eu já estou preocupada com esse tipo de coisa sendo que hoje foi tecnicamente o dia que nos conhecemos de verdade… isso não faz o menor sentido.
– Realmente, não é algo comum. – Ela respondeu ainda me analisando.
– Nymphaea, por que eu estou pensando essas coisas sobre um desconhecido? Um homem com quem só troquei uns beijos? – perguntei irritada. – Se isso foi só o primeiro dia, não quero nem ver como vou ficar depois dos próximos.
– Próximos é? – Ela perguntou saindo da água, para se secar, e ficou me encarando como quando éramos crianças e queria saber o que eu tinha aprontado.
Muitas vezes parecia que ela era a irmã mais velha.
– Que cara é essa Blue? – Ela perguntou curiosa.
– Eu perdi uma aposta. – Disse segurando a vontade de rir de nervoso.
– Que aposta?
Respirei fundo antes de responder
– Um final de semana com ele.
Nymphaea começou a rir da minha cara do jeito que só ela sabia, me fazendo rir junto.
– Mana, você tá tão fudida… – Ela disse pegando o celular. – Você deveria ter começado com essa informação.
Ela disse se virando, mas seu sorrisinho me dizia que tinha algo que eu não sabia.
– Nymphaea, o que você está fazendo? – Perguntei saindo da água.
No momento que cheguei perto das minhas coisas já ouvi o celular vibrando e as mensagens no grupo das Danadas chegando. Ela tinha avisado o bonde todo da minha derrota. “Vagabunda” pensei mais caí na risada com as mensagens que chegaram.