Capítulo 5 – Blue e Kaluya
Blue
As peças se acumulavam no canto da mesa, tanto do meu lado quanto do dele, mas era impossível não me arrepender da aposta idiota que fiz ao perceber que estava encurralada.
Eu era boa em Damas, sempre gostei de jogar com minhas primas, meus avós, minhas amigas e tinha minhas estratégias, mas o cretino não só era muito bom no jogo como parecia estar se divertindo com minha necessidade de pensar minhas jogadas. Enquanto eu passava alguns minutos analisando os movimentos que faria e tentando prever suas jogadas, ele mexia suas peças assim que eu tirava as mãos das minhas, como se já tivesse antecipado cada movimento que eu fazia.
“Mas também, quem mandou você apostar com o dono do tabuleiro sua esperta?” Me repreendi mentalmente.
Depois de tudo que aprendi sobre ele na internet, agora que já sabia seu nome, não deveria estar tão surpresa com sua mente estratégica.
O cara cresceu na pobreza e hoje era um empresário de sucesso a nível nacional e até mesmo internacional. Meu ego me fez subestimá-lo e eu pagaria o preço por isso.
Sua imagem era um reflexo disso, ele estava novamente de terno, esse era azul escuro e combinava perfeitamente com sua gravata ciano. Sua beleza era tão impactante para mim que eu me sentia distraída nos piores momentos.
E como se ainda não fosse o suficiente, ele insistia em sorrir e fazer piadas sugestivas sobre o que poderíamos fazer durante o final de semana, me distraindo ainda mais e fazendo meu corpo esquentar.
Seu cheiro já estava gravado em mim de forma quase insuportável e eu estava novamente imaginando como seria calar sua boca atrevida com um belo chá de buceta quando ele caiu na gargalhada.
O olhei irritada, sem entender o que tinha desencadeado sua reação quando ele se levantou e me estendeu a mão pela segunda vez naquela noite.
– Eu disse que o jogo já acabou minha deusa. – “Minha?” – Qualquer movimento que você faça o jogo termina em no máximo 5 jogadas. – Seu olhar divertido me irritava profundamente e eu só queria poder voltar atrás nessa aposta estúpida.
Mas, eu não era má perdedora, precisava ter o mínimo de dignidade.
Peguei sua mão e me levantei relutante, aquela energia ainda crepitava pela minha pele quando nossos corpos se tocavam e isso era desconcertante.
Eu definitivamente não queria fugir disso, porém, eu também queria muito a resposta para minha pergunta. Gostava de saber no que estava me metendo e se envolver com alguém da tropa não era algo banal.
– Por favor, me deixe te mostrar o restante do tabuleiro. – Ele disse me puxando por uma das escadas. – Você gostaria de comer algo?
– Não. – Respondi de forma receosa. O nervosismo e a expectativa deixando meu estômago agitado e o contato com sua pele me mantendo em estado de alerta.
“Será que ele também sente essa vibração com nosso toque?”
– Você tem certeza? Já bebeu um tanto hoje. – Seu tom não era repreensivo e eu quase acreditei ser preocupado.
– Estou bem, obrigada. – Respondi sabendo que não conseguiria comer agora e nem ficar bêbada tão rápido.
Subindo a escada, nos deparamos com um grande painel com uma cena de um jogo de xadrez, ao lado ficavam duas portas cinzas que pareciam trancadas. A parte de cima do bar era mais tecnológica, com versões digitais dos jogos e alguns fliperamas.
Estava tão cheio quanto o piso inferior e as risadas e provocações das pessoas tornava quase impossível saber qual música estava tocando ali e peguei surpresa por não me sentir mal em meio a tanta gente.
Eu geralmente não gostava de passar muito tempo em locais fechados com tantas pessoas.
Meu sentido olfativo era apurado, uma hiperosmia, que transformava esse tipo de situação em um potencial terror. Os diversos cheiros, perfumes e energias que vinham com esses aromas eram sufocantes em sua maioria, resultando em dores de cabeça mais fortes do que eu conseguia lidar.
Porém, estranhamente, ao lado de Kaluya era impossível eu me concentrar em outro cheiro que não fosse o dele. Um fato que me apavorava e me intrigava na mesma medida.
Ele fez o caminho em torno do bar, mostrando os camarotes que eram grandes com bares particulares e videogames de última geração. Havia também uma cozinha que trabalhava a todo vapor, mas logo voltamos a uma das portas cinzas do começo.
O cômodo era um escritório e o painel ao lado da porta na verdade se revelou uma grande janela, a imagem impedindo que qualquer pessoa visse o interior do escritório enquanto de dentro se podia ver todo o bar em funcionamento.
A sala em si era formada por tons de cinza e azul, muito masculina e além da estante atrás de sua mesa, o único item que se destacava era o sofá no outro canto e uma mesinha de centro.
Parecia estranhamente impessoal.
Ele me deixou analisar o local por um momento antes de me guiar para a grande janela.
– Você tinha razão sobre algo. – Ele murmurou ao me posicionar de frente para a grande janela, eu podia ver todo o movimento do bar dali.
Ele se colocou atrás de mim, enviando um arrepio por toda minha pele quando encostou seu corpo ao meu. Seu calor parecia me envolver, seus centímetros a mais parecendo maiores agora.
– Eu estava ansioso à sua espera, bem nesse lugar, observando a entrada… esperando o momento em que você passaria por aquela porta. – Ele concluiu segurando meu queixo em direção a porta lá embaixo.
Minha respiração parecia esquecida na gaveta nesse momento.
Kaluya colocou as mãos na base da janela e eu senti falta de seu aperto me dominando. Ele se inclinou para frente e me prendeu entre seus braços.
Um murmúrio baixo saiu de seus lábios quando não me inclinei junto com ele, meu corpo se firmando contra o seu, recebendo com prazer o atrito que o choque causou. Encostei minha cabeça em seu ombro, inalando seu aroma picante com cuidado, tentando decifrar cada nota.
– A pontualidade não é uma das minhas qualidades. – Consegui dizer depois de alguns segundos, minha voz soando mais rouca do que pretendia. – Mas parece ser um fator importante para você.
– Eu não estou acostumado a esperar. – Ele disse baixinho, se afastando o suficiente para mover meu cabelo todo para o lado e firmando as mãos em meu quadril. Seu nariz deslizou pelo meu pescoço, fazendo meu coração bater ainda mais rápido.
Ele continuou sussurrando em meu ouvido: – Mas consigo aprender rápido quando preciso.
Suas mãos me apertaram, me mantendo no lugar conforme ele se movia, pressionando o volume dentro de sua calça contra minha bunda.
Um gemido baixo escapou de meus lábios, o movimento em conjunto com seu calor pareciam me tirar a capacidade de pensar. Era eletrizante e calmante ao mesmo tempo, e deixava minha calcinha totalmente destruída.
“Minha calcinha…Minha calcinha velha e desbotada que coloquei propositalmente para não tirar essa calça de jeito nenhum!” Me lembrei num susto.
Me afastei abruptamente, me virando de costas para a janela e colocando as mãos em seu peito para afastá-lo.
Minha respiração acelerada e profunda, e precisei me concentrar para seu cheiro não me distrair do meu objetivo.
Seus olhos me analisavam com cuidado, tentando entender minha reação. Era óbvio que ele achou que eu cederia naquele momento, e não podia julgá-lo de todo, afinal eu tinha ido até ali não tinha?!
– Preciso de mais um drink. – Disse tentando mudar o rumo da situação.
Ele não se moveu, não desviou o olhar nem fez nenhuma menção de atender ao meu pedido. Apenas continuou me observando.
– Por favor. – Acrescentei mais alto.
Ele respirou fundo e minhas mãos queriam deslizar por seu peitoral firme, mas me contive.
– Como quiser minha deusa. – Ele finalmente respondeu me oferecendo sua mão. Eu aceitei o convite e seus lábios pousaram suavemente em meus dedos.
Eu já me sentia tão energizada pelo seu toque que nem soube dizer se houve outro choque.
Ele moveu os lábios para o meu pulso, onde depositou outro beijo suave e respirou fundo, como se estivesse me cheirando de volta e um gemido quase escapou de meus lábios. Minha respiração já estava ridiculamente descontrolada nesse momento e só piorou quando ele passou a língua por meu pulso em seguida.
Foi inevitável não pensar como seria sentir sua língua por todo meu corpo.
– Outro Dry Martini eu suponho.
Eu balancei a cabeça concordando, nem mesmo me arriscando a falar novamente.
Um daqueles sorrisos de canto apareceu em seus lábios conforme ele se endireitou, porém, esse não tinha nada de inocente, era um sorriso safado e divertido que me deixou ainda mais excitada.
Ele sabia o efeito que provocava em mim e isso era divertido para ele.
“Isis deve ter feito esse homem como um teste de lucidez para suas filhas.” Pensei resignada.
Ele me guiou para o sofá enquanto pegava seu celular do bolso. Minhas pernas se moveram no automático em seguida, a umidade entre elas me distraiu.
Eu estava tão molhada que dava de sentir a umidade se espalhando, grudando a calcinha de algodão a minha pele sensível a cada passo me tornando consciente do quanto estava excitada.
“Porqueeeee?” pensei irritada “isso definitivamente se qualifica como tortura!”
Eu me perdi em pensamentos por um momento, não sabia por que o conflito era tão grande dentro de mim.
Esse desejo era muito forte para resistir, e no fundo eu nem queria me conter, era só uma questão de tempo para eu me entregar, eu sabia.
Eu queria.
Mas simplesmente não podia deixar acontecer agora, meu instinto me dizia para esperar, eu precisava de mais tempo para entender seu efeito sobre mim.
A razão pela qual decidi colocar essa calcinha velha começou a se misturar em minha mente com os motivos para eu me entregar. Era impossível achar uma resposta satisfatória, o que só provou que tomei a decisão certa.
Me sentei enquanto ele digitava e ele seguiu meu exemplo, se sentando ao meu lado sem se incomodar em colocar nenhum espaço entre nossos corpos. Sua mão pousou sobre minha coxa e a intimidade de seu ato me pegou de surpresa.
– Então, Kaluya… Como mesmo que você me achou? – Perguntei decidindo me concentrar em palavras.
Ele me olhou curioso, deixando o celular em cima da mesinha de centro e trazendo a outra mão para minha perna também.
– Thiago. – Ele disse com mais um sorrisinho cínico na cara, mas eu já estava distraída demais para me sentir irritada.
– Ok. Thiago, como foi que você me achou? – Perguntei novamente ignorando a forma como sua mão deslizava pela pele exposta entre os rasgos de minha calça.
– Eu perguntei a uma amiga, que perguntou a alguma conhecida dela e por aí vai. – Ele disse trazendo uma das mãos para o meu cabelo, tirando-o do caminho mais uma vez. – Não foi tão difícil, você parece ser bem conhecida na sua comunidade.
“Ok, eu também fiz isso, perguntei as minhas amigas… mas não tive sucesso.” Pensei me decidindo por acreditar em suas palavras.
– E por quê? – Perguntei olhando atentamente em seus olhos. – Por que me procurou?
– Porque há tempos não me sentia atraído por alguém como senti no dia que te vi dançar. – Sua resposta veio rápida, mas suave.
O brilho em seu olhar parecia verdadeiro. Percebi também que sem a luz do sol suas írises não ficavam avermelhadas, permaneciam escuras, quase pretas… isso era bom para me manter focada.
– O que você fazia no atabaque aquele dia? – Perguntei voltando ao assunto. – O samba não parece ser o seu estilo.
Ele riu.
– E qual parece ser o meu estilo então? – Ele perguntou divertido.
– Eu perguntei primeiro. – Respondi não o deixando desviar o rumo da conversa. – Você estava a trabalho?
– O que te faz pensar isso, pretinha? – Ele perguntou se aproximando mais, deixando seus lábios a centímetros dos meus. O apelido carinhoso fazendo meu corpo tremer em resposta.
“Sim… mil vezes sim!”
– Você estava de terno. – Respondi mantendo meu olhar ainda preso ao seu. Não podia desviar do assunto. – Conversando com o Bruno.
– Hmmm. – Ele disse tocando meus lábios com os dedos. – Por isso você está preocupada que eu seja da tropa, você me viu conversando com o Bruno, capitão da sua região.
Eu não tinha visto isso, mas Nymphea sim, algo que não me incomodei em corrigir.
Seu tom não denunciava nada e seus olhos não se desgrudaram dos meus, mas seus dedos quentes desceram pelo meu pescoço.
– Eu gosto de saber com o que estou lidando. – Disse ainda esperando por sua resposta.
– Eu estava acertando permissões para os meus negócios, algo muitas vezes impossível de se conseguir por telefone. – Ele disse mudando sua atenção para os meus lábios. – Isso te preocupa?
Mais uma vez ele parecia ser sincero, e pensei sobre sua pergunta. Algo definitivamente me preocupava sobre tudo isso, mas se ele estava sendo sincero, então o que era?
– Meu instinto me diz que há algo que você não está me dizendo e que preciso saber. – Respondi pegando sua mão da minha coxa e brincando com seus dedos, meus olhos finalmente deixando seu rosto.
Eu não era uma pessoa fácil de enganar e ele precisava saber disso. Eu não iria desistir.
– Mas ao mesmo tempo você não parece estar mentindo, então não sei dizer ao certo o quão preocupada estou.
– Então continuamos a aprender um sobre o outro. – Ele murmurou encarando meus lábios. – Eu sou pontual e você instintiva.
Eu não respondi, não era uma pergunta. Ele moveu sua mão para minha nuca, me segurando.
– Isso é bom… Instinto é algo que pode ser estimulado. – Ele continuou antes de me beijar.
Sirenes de alerta começaram a piscar em minha mente.
Apenas um homem muito estrategista e jogador diria algo assim sobre conquistar uma mulher… Isso poderia ser bom ou muito, muito ruim. Mas não consegui concluir o pensamento.
Seus lábios me devoravam, seu gosto uma mistura de álcool e canela me distraindo.
Era um beijo ardente, picante como seu cheiro que se revelou por completo naquele momento, cada nota se acentuando a nossa volta como um casulo, seu desejo se tornando tão evidente aos meus sentidos que quase me paralisou.
Seu hálito quente parecia me deixar relaxada e pronta para mais enquanto seu beijo fazia correntes elétricas correrem por todo meu corpo e a tensão se acumular em meu ventre.
“Puta que pariu” pensei com minhas unhas cravando em seus braços.
Um gemido de protesto alto escapou dos meus lábios quando ele me deixou respirar por um segundo.
Isso pareceu o deixar ainda mais entregue. Antes que eu pudesse perceber, suas mãos me puxaram e ele me sentou encaixada em seu colo.
Minhas pernas se prenderam ao lado das suas e pressionei meu centro úmido contra o membro rijo dele, as camadas de roupa parecendo completamente desnecessárias agora.
Nenhum de nós ousou interromper o beijo. Suas mãos seguraram minha bunda, me puxando pra baixo e eu quase me encolhi com a onda de desejo que me dominou.
Meus dedos agora se enterrando em sua barba macia enquanto eu cedi ao instinto de sobrevivência e me afastei em busca de ar.
Se meu aperto doeu, ele não pareceu se importar e o usei para mantê-lo imóvel, observando seu olhar me prender em retorno. Sem conseguir me lembrar do porque não deveria, movi meu quadril de encontro ao seu, ele gemeu e suas mão estavam subindo pela minha cintura quando a porta se abriu sem aviso.
– Suas bebidas Thiago… – a voz feminina disse num rompante.
O susto me fazendo quebrar o contato visual, a lufada de ar me permitindo me distrair por um breve momento. Eu fiz menção de me levantar, mas seu aperto me manteve no lugar.
– Me desculpe. – A voz atrás de mim continuou em um tom tedioso forçado, me deixando desconfortável e me tirando do meu torpor. – Não queria interromper sua diversão, mas bati e não obtive resposta, não queria te deixar esperando.
Eu não conseguia ver a pessoa atrás de mim, mas não precisava me virar para saber que ela não estava feliz. A forma como ela disse que eu era uma diversão, como se essa fosse uma situação comum, não me passou despercebida. “Nenhuma outra garçonete o chamou de Thiago, apenas de senhor Kaluya…” pensei intrigada. Seja essa mulher quem fosse, tinha um cheiro forte cítrico, um pouco azedo, e parecia querer nos passar um recado.
Tentei me levantar novamente e quando não consegui levantei uma sobrancelha em questionamento a ele.
– Deixe a bandeja na minha mesa, obrigada. – Ele respondeu sem desviar o olhar do meu. Seu tom indicava sua infelicidade com a interrupção, mas ele não disse mais nada enquanto a porta não se fechou novamente.
– Me desculpe por isso. – Ele disse alisando a pele da minha cintura com o polegar.
– Pelo que? – Perguntei sustentando seu olhar. – Pela interrupção ou pela sugestão ofensiva?
– Por tudo. – Sua resposta veio rápido. – Não quero que fuja de mim por causa disso.
Foi a minha vez de dar um sorriso cínico.
– Eu não estou com vontade de fugir sabe?! – Disse me aproximando novamente de seus lábios, meu tom derramando ironia.
– E esse provavelmente é o problema aqui. – Segurei em seus pulsos e os usei como apoio para me levantar.
– Não há nenhum problema. – Ele respondeu, mas eu não vi sua expressão, pois, já estava de costas indo em direção a sua mesa.
Peguei minha bebida e procurei pela minha bolsa. Ela estava esquecida no chão, perto da janela. Eu nem me lembrei dela enquanto estive ao seu lado.
Ele antecipou meu movimento e foi até lá.
– Obrigada. – Disse estendendo a mão para pegá-la, mas ele não a soltou.
– Mas você decidiu fugir mesmo assim. – Seu olhar me estudava atentamente.
Eu lhe sorri.
– Eu preciso fugir de algo?
– Não.
– Então essa conversa não faz sentido.
– Você fugir também não faz.
Eu virei a bebida e larguei o copo antes de me aproximar mais dele, segurando seu queixo como antes e puxando suavemente seu rosto para perto do meu.
Nossos lábios estavam tão perto agora que quando falei sentia nossas peles se tocarem:
– Parece que não há mais nada para mim aqui essa noite. – Disse lhe mostrando com o olhar que nenhum de nós ia ter o que queria essa noite. – Mas eu vou ver se te aviso quando o final de semana que eu estiver livre chegar.
Ele sorriu com a menção a nossa aposta. Soltando minha bolsa, mas segurando meu queixo de volta.
– Eu já te expliquei que aprendo rápido, posso aprender a esperar. – Ele respondeu antes de passar a língua pelos meus lábios. – Aposto que nesse meio tempo a aromaterapia vai me ajudar a ser mais paciente.
“Cretino!”
– Eu posso te indicar algumas terapeutas muito boas. – Respondi me soltando e dando um passo para trás.
– Eu já tenho uma. – Ele respondeu com mais sorriso cínico, e a irritação que sentia era bem-vinda.
– Não foi isso que nós combinamos. – O lembrei.
– Nós também combinamos uma aposta, mas ela parece incerta agora… – Ele respondeu se recostando a janela e colocando as mãos no bolso. Ele parecia gostar dessa pose. – Eu tenho que me agarrar às chances que tenho.
– Você é bem determinado. – Comentei irônica.
– Eu me dedico incansavelmente até conseguir o que eu quero. – Ele disse se aproximando e meu corpo se arrepiou de uma forma que não soube dizer se era bom ou não.
“E depois que você conseguir o que quer?” quis perguntar, mas me contive.
Apenas lhe lancei um olhar de advertência. Eu realmente não o queria no estúdio como cliente e já tinha deixado isso bem óbvio, era um limite que ele teria que respeitar, quanto ao resto, precisaria pensar depois.
– Quer que eu te leve em casa? – Ele perguntou enquanto eu me dirigia para a porta.
– Não será necessário. – Respondi com o tom mais calmo que consegui. – Obrigada pela noite, foi divertida. – Conclui antes de sair.
Passei por ele sem olhar pra trás. Atravessei o salão e ainda assim, eu sabia. Sabia que Kaluya continuava parado perto da janela, me observando partir. Empurrei a porta do Tabuleiro.
O cheiro dele ainda estava em mim. E isso era, de longe, a parte mais perigosa daquela noite.