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Um conto Bilquis

Blue e Kaluya – capítulo 3

ColeçãoLeitura Íntima TemasInevitável - Romance IntensidadeIntenso
18+

Ficção erótica para pessoas adultas. Leia no seu tempo, em um momento só seu.

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Capitulo 3 – Blue e Kaluya

Blue

Eu olhei para o relógio mais uma vez, havia demorado mais tempo do que o recomendado atendendo Dona Jana. Agora, enquanto fazia a limpeza energética da sala para a entrada do próximo paciente, me chutava mentalmente por não conseguir me concentrar mais uma vez. 

Parecia que hoje estava ainda mais forte aquele maldito cheiro de canela que fazia minha mente desejar coisas que eu não tinha como realizar.

 “Como isso podia estar tão gravado na minha mente mesmo depois de dias?” 

O trabalho de 10 minutos se estendeu por mais 5 e quando finalmente terminei, acionei Yanca para que o próximo paciente entrasse. 

O que eu não esperava era que a figura imponente de terno em minha porta fosse a mesma que dominava meus sonhos dos últimos dias. 

Parei arregalando os olhos de surpresa enquanto seu olhar me examinava de cima a baixo. Uma parte de mim queria fazer o mesmo com ele, mas o cheiro dele me atingiu tão forte, enchendo o clima ao meu redor de uma energia eletrizante que tudo que consegui fazer foi analisar o aroma. 

O cheiro de canela picante em conjunto com um aroma artificial de “Tolú Bálsamo, Cardamomo, Canela, um resquício de Sálvia… talvez limão….” 

– Esse perfume combina perfeitamente com você, mas atrapalha seu aroma natural – Falei abrindo os olhos que nem tinha percebido ter fechado. 

O olhar do estranho me bebia com um interesse que me fez arrepiar. 

– A terapia acontece aqui na porta? – Ele perguntou com um sorriso de canto nos lábios. Sua voz era como seu cheiro, parecia invadir meus sentidos e me desconcertar….

A distração estampada em meu rosto o fez sorrir ainda mais, percebi resignada. 

– Não é recomendável. – Disse por fim, sustentando seu olhar. 

– Eu imagino que não… – Ele respondeu ainda com o mesmo sorriso no rosto. Um sorriso que pesava com uma inocência falsa, feito para provocar quem estivesse na sua frente.

– Não é recomendável vir a uma sessão de aromaterapia usando perfumes, principalmente aromas artificiais, isso pode atrapalhar o processo e o efeito da terapia. – Expliquei saindo do caminho para que ele entrasse na sala. – Como eu sei que Yanca o orientou. 

– Ah… sim – Ele respondeu sem expressão ao entrar analisando o lugar, finalmente se dando conta do que eu falava. – Eu vim direto de uma reunião. 

– Apenas evite da próxima vez. – Devolvi com suavidade. – Hoje podemos fazer sem o terno caso atrapalhe, se você não se importar. 

– Se eu soubesse que você iria se atrasar eu teria tomado um banho antes de vir, mas a nudez não me incomoda… não se preocupe. – O tom de voz dele era provocativo. 

Parecia que eu conseguia sentir a energia do estúdio mudando. A insinuação sexual e a alfinetada quanto ao meu atraso me causando reações contrárias ao mesmo tempo. 

Respirei fundo e contei até quatro precisando de controle e internamente agradeci ao perfume por me distrair do seu real cheiro, aquele que tanto me abalava. 

Colando mais um sorriso controlado no rosto, o encarei novamente. 

– O que importa é que estamos prontos para começar agora. Sente-se por favor. – Respondi ignorando suas insinuações e decidindo não me mostrar afetada, eu queria beijar aquela boca linda? Queria! Mas estava em meu local de trabalho, e jamais me comportaria assim ali. 

Acessei sua ficha no computador antes de continuar. – Senhor… Kaluya, o que o traz a aromaterapia? Por que precisa da minha ajuda?

Kaluya… e esse olhar que ta me devorando?

– Eu tenho tido insônia. Não consigo dormir nem respirar direito. Além disso, não consigo me concentrar ao longo do dia. Isso tem atrapalhado meu rendimento no trabalho, minha rotina e me incomodado. – Ele respondeu de forma impassível. Sua voz era suave, mas meu instinto me dizia que havia algo de errado em toda aquela situação. 

Como ele me encontrou?”

– Quando os sintomas começaram? – Perguntei anotando os dados no computador. 

– Há quase uma semana – Ele respondeu com um sorriso de canto que ainda parecia bonito demais para ser real. – Cinco dias para ser mais exato…

Esse não foi o dia que nos vimos?”  

– No dia da última roda de atabaque da comunidade? No último domingo? – Perguntei desconfiada. 

– Exatamente… – o sorriso dele agora era enorme, solar, me distraindo por alguns segundos.

– Você sente alguma dor? – Continuei a perguntar recobrando o ritmo da respiração e digitando as informações na sua ficha. 

– Não exatamente – Ele respondeu e mesmo sem olhar eu sabia que aquele sorriso de canto estava lá novamente. 

– Me desculpe, o senhor vai precisar ser mais específico. Há alguma dor ou desconforto físico que acompanhem os sintomas que citou anteriormente? – Perguntei o observando e tentando ignorar o forte aroma de canela no ar. 

– É mais como um desconforto, uma tensão que me acompanha o dia todo com um…. latejar. É, um latejar constante e… pulsante que precisa urgentemente ser aliviado. – Ele respondeu com mais um sorriso cínico no rosto. 

Não pode ser!”  Pensei precisando controlar minha expressão novamente.

Minha mente se encheu com as fantasias que me atormentaram a semana toda, causadas pelo cheiro e a imagem do homem à minha frente. 

O estresse que isso causou na minha própria rotina era notório. 

Ele se sente da mesma forma, é isso? Ele está aqui por tesão acumulado?

 Mas a diversão explicita em seu rosto começou a me irritar. 

Como ele ousa brincar com minha cara desse jeito no meu local de trabalho?” 

– A tensão que o senhor descreve parece estar ligada à tensão sexual. – Lhe respondi voltando a digitar em sua ficha. – Estou errada?

– Não. – Ele respondeu de novo sem expressão, mas sabia que era por ter mantido o meu tom o mais frio possível. 

– O senhor também percebeu alguma desregulação com a realização do ato sexual em si que tenha causado esse desconforto contínuo? – Continuei minha investigação o encarando como se não estivesse curiosa sobre a resposta. 

E lá estava o sorriso cínico dando as caras novamente. 

– Graças a Deus eu nunca precisei me preocupar com algo assim na vida sabe doutora? – Ele respondeu sustentando meu olhar. – E não acho que vou precisar me preocupar com isso por muitos anos ainda. 

Seu olhar nunca deixava meu rosto, analisando cada reação, brilhando com uma intenção evidente de cafajeste, me esquentando sem nem mesmo me tocar. 

Antes de eu conseguir responder alguma coisa ele continuou:

– Agora mesmo eu posso sentir que tudo está… certo comigo. 

Isso só pode ser brincadeira.”  

Sentindo um misto de raiva e incredulidade crescer dentro de mim, duelando com a excitação que sua presença me causava. 

Odiava a postura de autoridade que ele mantinha enquanto me provocava no meu local de trabalho. 

Com que direito?” 

Como terapeuta já tinha ouvido todo tipo de piada machista e cantada barata. Já tinha recebido insinuações mais descaradas que aquela e colocado gente para fora do meu estúdio a base do grito sempre que as coisas saiam do controle. 

E, apesar de que lembrar essas coisas só me irritava, o que eu odiava mais ainda era a forma como meu corpo reagia a todas essas insinuações que ele fazia. 

– O senhor tem certeza? Há também o contrário do que o está sugerindo. Às vezes é justamente o vício em sexo e a desregulação energética que o coito mal praticado em excesso produz que vem a prejudicar a nossa saúde física e mental. Uma alteração no ato sexual é apenas uma consequência disso. Além de causar vários problemas como a incapacidade de se sentir satisfeito e levando a uma necessidade constante e urgente de… alívio, como o senhor mencionou. –  Respondi mantendo o olhar avaliativo que ele me dirigia. 

Não vou bancar a adolescente assustada, e nem a oferecida, não mesmo.” 

– O ato sexual envolve uma importante troca de energia entre os envolvidos. E a troca com uma energia ruim pode alterar nossa energia vital.

Por um momento ele não parecia mais saber o que responder e isso o deixava desconfortável, era óbvio em seus olhos apesar de sua expressão se manter inalterada. 

Como ele consegue esconder o que sente tão bem?” 

Quando finalmente encontrou as palavras, o sorriso de canto voltou ao seu rosto. 

– Eu não acredito que esse seja o problema também. – Ele respondeu se recostando na cadeira de forma tranquila. 

confortável até demais”. 

– Algo me diz que a minha… energia vital… vai ser beneficiada quando você me ajudar com meu problema. 

Na verdade… eu realmente poderia resolver.

O pensamento surgiu antes que eu pudesse impedi-lo. 

E era justamente isso que me desesperava.

Porque a forma como eu imaginava resolver aquele problema definitivamente não fazia parte da terapia.

Afastei aquela fantasia da cabeça. Era hora de trabalhar.

Levantei-me.

— A aromaterapia é uma terapia holística que utiliza os óleos essenciais como ponto de partida para alcançar diferentes sistemas do organismo.

Enquanto falava, caminhei até o armário onde guardava os materiais.

— Aqui no estúdio, unimos esse trabalho à Filosofia Kemética e ao Smai Tawi, buscando restabelecer o equilíbrio das sete leis universais.

Separei alguns frascos e fui dizendo enquanto preparava as folhas secas e os óleos que precisaria para a sessão, me concentrando nos aromas e nos efeitos que eles causariam no corpo de Kaluya. E no meu.

– Pode me chamar de Thiago. – Ele murmurou mas fingi não ouvir. 

Quando me virei novamente para ele parei, distraída por um momento. Seu torso estava completamente nu. Os músculos de seu braço, abdômen e peitoral totalmente definidos pareciam ter a textura perfeita para serem beijados e lambidos até a exaustão. 

A provocação estava explícita em seu olhar, e seu cheiro picante estava tão intenso que fazia meu corpo se esquentar ainda mais. 

Reunindo todas as minhas forças, ignorei o calor que sentia se espalhar no meu ventre, e voltei a me virar para o armário na tentativa de me controlar. 

Eu não posso deixar esse homem me afetar tanto assim.” 

“Eu não vou deixar esse homem me afetar tanto assim!” Mentalizei. “Lembre-se que ele provavelmente é da tropa.”

– Por favor me siga. – Peguei minha cesta com os óleos aromáticos e fui para o pequeno jardim que mantinha ao lado da minha sala. – Tire os sapatos também. 

Deixei a porta de vidro aberta e fiz sinal para Thiago fechá-la quando ele passou por ela. 

Estendi a manta no chão me sentando em uma das pontas. 

Ele tinha um olhar curioso que parecia ponderar sobre a minha sanidade. Eu conhecia bem esse olhar, todos os que não compartilhavam do estilo de vida que eu levava me olhavam como se fosse louca em alguns momentos, ouvira vários apelidos durante a minha vida. 

Quando criança me chamavam de coisas como “natureba”, “hippie” e “maconheira”. E assim como fui ensinada pelos meus pais, não permiti que o olhar acusador dos outros me fizessem sentir mal comigo mesma quando criança, e nem deixaria agora. 

– Com medo de pisar na grama? – Perguntei com simplicidade, mesmo no fundo achando ridícula sua hesitação.

– De forma alguma. – Ele respondeu finalmente se sentando. – Apenas admirando a vista. 

Quando parado à minha frente, imitou minha posição cruzando uma perna sobre a outra com os pés em cima das coxas voltados para o quadril. Apesar de não conseguir o alongamento completo de Shoshan seria o suficiente para se concentrar, “eu espero”

O olhar de Thiago me analisava firmemente, como se quisesse desvendar os segredos que tanto me esforçava para esconder nesse momento. 

– Firme a postura, por favor, e feche os olhos. – Disse pegando a cesta. 

Estranhamente, ele ficou com uma expressão calma, não parecia tão desconfortável quanto imaginei que ele ficaria sem esbanjar tanta autoridade. 

Mas com ele é difícil saber.” Minha mente me avisou. 

Enquanto arrumava o difusor de ambiente e as folhas secas, tentei me concentrar sabendo que aquela sessão seria para mim tanto quanto para ele. Os dois ironicamente tratando dos sintomas da atração mútua que nos assolou desde o primeiro contato.   

Eu não tô conseguindo acreditar que tô tendo que tratar logo isso agora… e com ele…. foco Blue, foco!

— Foque nos sons da natureza. – Minha voz saiu mais calma do que eu me sentia. — E permita que os aromas encontrem espaço dentro de você.

Iniciei a respiração em quatro tempos.

— Inspire profundamente. – Esperei alguns segundos. — Segure.

Contei mentalmente.

— Agora solte devagar. – O aroma do jasmim espalhou-se primeiro.

Suave. Leve.

Logo depois veio o sândalo.

Mais quente. Mais profundo.

Os dois perfumes começaram lentamente a dominar o pequeno jardim.

— Tanto o jasmim quanto o sândalo ajudam a aliviar a tensão muscular e o excesso de estresse. – Continuei falando enquanto observava sua respiração desacelerar. — Também favorecem o relaxamento. O jasmim auxilia o sistema respiratório. O sândalo ajuda a reorganizar os estados emocionais.

Kaluya abriu um dos olhos.

Olhou para mim.

Segurei o riso.

— Feche os olhos.

Ele obedeceu novamente.

Levantei-me.

— Continue respirando em quatro tempos. – Aproximei-me por trás dele. — Mentalize aquilo que precisa ser curado. Aquilo que deseja transformar.

Coloquei delicadamente as mãos sobre suas costas para corrigir sua postura. 

No mesmo instante, um arrepio atravessou meu corpo.

Nós dois arfamos.

Ao mesmo tempo.

 – Esse é um jeito interessante de diminuir minha libido. – Ele murmurou com um sorriso de canto que eu já não sabia mais se sairia de seu rosto algum dia. 

– Concentre-se. – Pedi, mas minha voz não saiu tão firme quanto queria. – Lembre-se da respiração em quatro tempos. Sua mente é poderosa e assumir o controle dela significa assumir o controle de seus sentimentos, mudando seu mundo do interior para o exterior. 

– Sim senhora. – Ele respondeu ainda com o sorriso cínico e sexy. 

Ele não deve estar falando sério.” Pensei. 

Mas se ele sentir o mesmo que eu…”  

Era óbvio que ele me afetava profundamente, se ele sentia o mesmo, com certeza aquele toque era instigante… 

De onde vem essa conexão?”

Aproveitei o momento para analisa-lo mais de perto. Andei ao seu redor, enquanto contava a respiração em conjunto com ele. Seus músculos eram definidos nos braços e barriga, até os ombros largos eram bem talhados. A calça do terno não deixava saber muito, mas pela forma que contornava sua coxa, sabia que não deveria ser diferente do resto. 

Sua pele de ébano parecia estar em perfeita harmonia com a luz do sol, ganhando uma tonalidade viva e parecendo refletir a luz de volta, convidando-me a tocá-lo.

Nesse exato momento percebi que a terapia não bastaria. 

Meu trabalho como toda terapia só funcionava quando a parte envolvida se comprometia pelo menos minimamente com o processo, e toda terminação nervosa do meu corpo me dizia que não haveria outra forma de resolver esse desejo que vibrava em mim, eu queria apenas me aproximar da luz. 

E ele com certeza não parece disposto a abrir mão disso…” 

A energia entre nós dois estava chamando uma à outra em uma necessidade incontestável, a grande questão era: “Eu queria me envolver com algo que me tirava do eixo dessa forma?”

Os questionamentos eram muitos, mas os empurrei para o fundo de minha mente, e continuei a sessão mentalizando o necessário para colocar a energia de nós dois de volta no lugar o máximo que podia com a terapia. Quando a luz de led em volta da porta ficou verde indicando que o tempo de sessão terminou, parei a sua frente.

– Terminamos. – disse suavemente. – Pode se levantar.

Ele abriu os olhos, me encarando e se sentando com os dois pés no chão e os braços descansando em seus joelhos. Seus olhos castanho escuros capturaram cada raio de sol e o prenderam dentro de sua íris, que adquiriu um tom quase avermelhado, de forma hipnotizante. 

– Agora temos duas opções. – Informei me mantendo séria. – Ou continuamos a terapia realmente a sério na próxima sessão, sem piadinhas e insinuações ou você me diz o que quer de verdade e desiste de ocupar meu horário de trabalho. 

Não desviei o olhar dele nem por um momento. 

Um sorriso contagiante surgiu em seus lábios, até seus dentes perfeitos pareciam agradecer a presença do sol. 

Seu lábio superior era levemente menor que o inferior e com um declive no meio apenas o suficiente para formar os lábios mais bem desenhados que já tinha visto.

Ele estendeu a mão para mim, pedindo ajuda para levantar-se. 

Mesmo desconfiada, eu cedi. 

Nossa respiração se descompassou quando o choque novamente dominou nossos corpos com o impacto da pele dele na minha. 

Antes que pudesse pensar em reagir ele pegou impulso com os joelhos, se levantou com minha ajuda e me puxou para si no mesmo movimento. 

Parei em expectativa, o choque de seu corpo no meu aumentando a vibração dentro de mim. As mãos dele se prenderam em minha cintura enquanto ele mantinha meu olhar cativo.

– Esse me parece um investimento arriscado. – Sua voz era grossa e reverberou pelo meu corpo, me arrepiando. – De um lado a garantia de continuar te vendo, de outro a incerteza. 

– Você como o homem de negócios que parece ser não deve ter medo de investimentos arriscados. – Devolvi com o tom mais firme que consegui. 

O sorriso solar voltou, eu só não sabia o quão bom isso era para minha saúde.

– Essa é a incerteza mais garantida que investirei esse ano. – Kaluya disse apertando ainda mais minha cintura. 

Eu não respondi, não conseguia pensar em uma resposta naquele momento, meu corpo traidor reagiu ao seu toque como eu tinha imaginado que seria nas tantas vezes que pensei sobre ele essa semana e engoli um gemido com dificuldade. 

– Hoje à noite. No Tabuleiro, centro sul. Conhece? 

No centro, território neutro decretado pela Tropa.”  Percebi curiosa, era como se um alerta soasse na minha cabeça. 

– Qual a sua patente? – Perguntei observando cada movimento que seus olhos faziam. 

Um vinco se formou entre suas sobrancelhas por um momento antes de ele responder. 

– Eu não tenho patente. – Sua voz grave não vacilou. Enquanto eu analisava suas palavras tentando decidir se eram verdadeiras ou não ele continuou: – Ninguém faz negócio nessa cidade sem conversar com a tropa. Mas não se preocupe, você estará segura comigo lá e em qualquer lugar. 

O olhei por mais alguns segundos antes de me afastar, precisando da resposta para respirar melhor. 

– Vou pensar sobre. – Respondi pegando minhas coisas e indo para dentro da sala. 

Não conseguia acreditar no que estava acontecendo. 

Guardei a cesta no armário e aproveitei para pegar os cristais de limpeza energética enquanto ele se vestia. 

Quando me virei o encontrei recostado à porta da sala, com o terno nas mãos, me observando. 

– Como acima, assim abaixo, como abaixo, então acima. – Disse o encarando de volta. 

– O que isso significa? – Seu tom denunciava que sua curiosidade era verdadeira. 

Não respondi, me recostando ao armário, me colocando propositalmente como sua igual e me recusando a simplesmente dar o primeiro passo ou ir até ele. 

No fundo eu não só reconhecia a vibração que ele causava em meu corpo, como sabia que não há formas de se vibrar assim sozinha. 

Esse é o tipo de dança que precisa de dois para ser dançada. 

E entendia também que ele não tinha compreendido a profundidade de minhas palavras, mas não era o momento de explicar. Apenas caminhei até minha mesa e peguei um cartão vermelho para lhe entregar.

– O que eu faço com isso? – Ele perguntou aproveitando o momento para chegar mais perto novamente. 

– Esse cartão indica a faixa de preço que você vai pagar pela sessão. Aqui quem recebe mais, paga mais. – Respondi o desafiando a me questionar, sem me surpreender quando ele realmente o fez. 

– Como você mantém seus clientes cobrando mais de uns do que outros? – Ele perguntou num tom curioso. 

– Eu sou boa no que faço. – Respondi ainda séria. 

Ele me analisou por mais alguns segundos antes de se aproximar ainda mais e tocar meu queixo com o dedo indicador, elevando minha cabeça na direção da sua. 

Assisti meu olhar ser vasculhado pelo dele a procura de resistência e quando ele não encontrou nenhuma, encostou os lábios nos meus com uma leveza agoniante sem realmente me beijar e sem se afastar.

Eu não sabia onde terminava a sua respiração e onde começava a minha. Seu maldito cheiro que tanto me atormentou parecia o mais irresistível dos sabores naquele momento, eu queria colocar a língua para fora para provar como no primeiro momento que o senti. 

E tudo que eu precisava fazer para provar era me mover um milímetro…

Minha boca encheu d’agua com a possibilidade, mas eu não conseguia fazer nada além de continuar a olhar em seus olhos solares, ainda avermelhados. 

– Te espero às 20hrs – Ele disse se afastando. 

Quando consegui respirar novamente, já estava sozinha.